O
mito do uso de hormônios na produção de
frangos
Diz-se
que uma mentira repetida mil vezes acaba virando verdade. Apesar
disto, um dos mitos modernos mais conhecidos (o do uso de hormônios
na criação de frangos) não encontra respaldo
na opinião pública, visto que ano após
ano, cresce o consumo per capita de carne de frango no Brasil
e no mundo.
A
desinformação, todavia ganha ares de ameaça
quando veiculada de forma sensacionalista e irresponsável,
especialmente quando atribuída a membros de profissões
formadoras de opinião, como médicos e nutricionistas.
Não são raros os exemplos destes profissionais
que declaram haver a utilização de hormônios
na criação de frangos de corte, como o médico
especializado em reprodução humana, Isaac Yadid,
que, segundo a jornalista Gabriela Moreira, afirmou que 99%
dos frangos no Brasil são criados com a utilização
de hormônios, e, que tal fato tem como conseqüência
uma redução na fertilidade masculina por interferir
bastante na produção de espermatozóides.
O
artigo publicado em um jornal de grande circulação
nacional possuí o título “Vilão -
Frango tem muito hormônio e pode afetar a fertilidade
masculina” e a princípio trata-se de uma análise
de um artigo científico publicado na revista “Fertility
and Sterility” (Fertilidade e Esterilidade) a respeito
de uma associação entre infertilidade e consumo
de carnes e leite. Em nenhum momento entretanto, o artigo cita
a utilização de hormônios em animais como
a causa de infertilidade, de onde deduzimos, que a inferência
aos mesmos é exclusiva do médico Isaac Yadid.
Aprofundando
a busca pela internet, encontramos supostos nutricionistas orientando
pessoas a comerem pouca carne de frango pois esta tem muito
hormônio. No site de relacionamentos do Orkut, existem
pelos menos 7 comunidades relacionadas ao mito do hormônio
na produção de frangos. Ainda bem que a grande
maioria apenas para lembrar que trata-se de um mito. Uma comunidade
entretanto chama a atenção : a que apregoa que
adolescentes que queiram entrar na puberdade mais cedo comam
mais carne de frango.
Tranqüiliza
saber que a grande maioria dos artigos encontrados na internet
por sistemas de busca com a associação de palavras
“Frango + Hormônio” são de profissionais
(em geral da indústria ou órgãos de pesquisa
governamentais) que buscam esclarecer aos leigos no assunto,
que trata-se de um mito. Mas por que o mito sobrevive? Quais
são os argumentos de quem afirma ser verdade a utilização
de hormônios na produção de frangos de corte?
Estamos realmente seguros de que é um mito?
Sim,
nós profissionais do setor, estamos seguros que trata-se
realmente de um mito. As razões são inúmeras
e dentre elas podemos destacar que diversos estudos científicos
não conseguiram provar qualquer benefício da utilização
de hormônios para acelerar o crescimento das aves. Os
resultados são controversos, em especial porque as aves
já expressam elevado ganho de peso, fruto da intensa
seleção genética e dos modernos sistemas
de criação.
Ainda,
nosso país é um dos maiores exportadores de carne
de frango do mundo, e nossa produção está
sujeita além da inspeção pelos órgãos
governamentais do Brasil, a análise dos países
importadores, muitos dos quais criam restrições
não tarifárias à nossa exportação,
inclusive com a análise de centenas de tipos de resíduos
diferentes na carne e vísceras dos animais. Caso houvesse
a presença de hormônios na carne, o mesmo já
teria sido certamente detectado pelos países importadores.
O
mito existe provavelmente porque leigos se assustam em saber
a rapidez com que é possível criar um frango.
Em 1950, um frango demorava 70 dias para alcançar 1,6
kg de peso. Atualmente, os frangos são abatidos aos 42
dias, com 2,5 kg de peso. Tal evolução decorre,
principalmente, da rigorosa seleção genética
das aves, e dos desenvolvimentos de nutrição,
sanidade, ambiência, manejo e administração.
A produção de frangos não é mais
uma atividade de fundo de quintal, mas uma atividade econômica
intensiva, mobilizando tecnologias e profissionais de diversas
áreas para assegurar que o animal possa expressar todo
seu potencial genético. Assim, as dietas são equilibradas
e enriquecidas com minerais, vitaminas, aminoácidos etc.;
a água é tratada e filtrada; os pintinhos são
vacinados já no incubatório; as instalações
permitem o controle da temperatura para o máximo conforto
das aves. Técnicos de campo acompanham cada dia de criação
para garantir o melhor ambiente aos animais. Galpões
automatizados, com iluminação artificial, garantem
às aves oportunidade de se alimentarem também
durante o período noturno. Anualmente milhares de artigos
técnicos são escritos por pesquisadores de todo
o mundo que buscam melhorar cada vez mais a eficiência
do setor, são raríssimos os artigos que tratam
do uso de hormônios para frangos, e, assim mesmo, de caráter
estritamente acadêmico.
E
quanto à puberdade precoce de adolescentes? Bem, caso
seja verdade que hoje em dia os adolescentes entram na puberdade
mais cedo do que algumas décadas atrás (digo isto
pois nunca de fato me interessei em procurar artigos que tratem
deste assunto), arrisco-me a dizer que deveriam ser pesquisados
como principais fatores a alimentação das crianças
(mais adequada, com suplementação de vitaminas
e minerais), a saúde (dispomos atualmente de vacinas
e remédios mais eficientes, além de médicos
cada vez mais especializados e com maior conhecimento) e a exposição
precoce, pelos meios de comunicação, de meninos
e meninas a conteúdos de natureza sexual.
Produção
de frango com utilização de hormônio é
um mito! Concito a todos os colegas que trabalham no setor a
denunciarem aos nossos órgãos de representação
as notícias veiculadas a respeito dessa invencionice.
Apesar de todos os protestos, muitas notícias ainda circulam
pela internet e certamente as encontraremos em meios impressos
(jornais e revistas).