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Data: Novembro /2009

O mito do uso de hormônios na produção de frangos

Diz-se que uma mentira repetida mil vezes acaba virando verdade. Apesar disto, um dos mitos modernos mais conhecidos (o do uso de hormônios na criação de frangos) não encontra respaldo na opinião pública, visto que ano após ano, cresce o consumo per capita de carne de frango no Brasil e no mundo.

A desinformação, todavia ganha ares de ameaça quando veiculada de forma sensacionalista e irresponsável, especialmente quando atribuída a membros de profissões formadoras de opinião, como médicos e nutricionistas. Não são raros os exemplos destes profissionais que declaram haver a utilização de hormônios na criação de frangos de corte, como o médico especializado em reprodução humana, Isaac Yadid, que, segundo a jornalista Gabriela Moreira, afirmou que 99% dos frangos no Brasil são criados com a utilização de hormônios, e, que tal fato tem como conseqüência uma redução na fertilidade masculina por interferir bastante na produção de espermatozóides.

O artigo publicado em um jornal de grande circulação nacional possuí o título “Vilão - Frango tem muito hormônio e pode afetar a fertilidade masculina” e a princípio trata-se de uma análise de um artigo científico publicado na revista “Fertility and Sterility” (Fertilidade e Esterilidade) a respeito de uma associação entre infertilidade e consumo de carnes e leite. Em nenhum momento entretanto, o artigo cita a utilização de hormônios em animais como a causa de infertilidade, de onde deduzimos, que a inferência aos mesmos é exclusiva do médico Isaac Yadid.

Aprofundando a busca pela internet, encontramos supostos nutricionistas orientando pessoas a comerem pouca carne de frango pois esta tem muito hormônio. No site de relacionamentos do Orkut, existem pelos menos 7 comunidades relacionadas ao mito do hormônio na produção de frangos. Ainda bem que a grande maioria apenas para lembrar que trata-se de um mito. Uma comunidade entretanto chama a atenção : a que apregoa que adolescentes que queiram entrar na puberdade mais cedo comam mais carne de frango.

Tranqüiliza saber que a grande maioria dos artigos encontrados na internet por sistemas de busca com a associação de palavras “Frango + Hormônio” são de profissionais (em geral da indústria ou órgãos de pesquisa governamentais) que buscam esclarecer aos leigos no assunto, que trata-se de um mito. Mas por que o mito sobrevive? Quais são os argumentos de quem afirma ser verdade a utilização de hormônios na produção de frangos de corte? Estamos realmente seguros de que é um mito?

Sim, nós profissionais do setor, estamos seguros que trata-se realmente de um mito. As razões são inúmeras e dentre elas podemos destacar que diversos estudos científicos não conseguiram provar qualquer benefício da utilização de hormônios para acelerar o crescimento das aves. Os resultados são controversos, em especial porque as aves já expressam elevado ganho de peso, fruto da intensa seleção genética e dos modernos sistemas de criação.

Ainda, nosso país é um dos maiores exportadores de carne de frango do mundo, e nossa produção está sujeita além da inspeção pelos órgãos governamentais do Brasil, a análise dos países importadores, muitos dos quais criam restrições não tarifárias à nossa exportação, inclusive com a análise de centenas de tipos de resíduos diferentes na carne e vísceras dos animais. Caso houvesse a presença de hormônios na carne, o mesmo já teria sido certamente detectado pelos países importadores.

O mito existe provavelmente porque leigos se assustam em saber a rapidez com que é possível criar um frango. Em 1950, um frango demorava 70 dias para alcançar 1,6 kg de peso. Atualmente, os frangos são abatidos aos 42 dias, com 2,5 kg de peso. Tal evolução decorre, principalmente, da rigorosa seleção genética das aves, e dos desenvolvimentos de nutrição, sanidade, ambiência, manejo e administração. A produção de frangos não é mais uma atividade de fundo de quintal, mas uma atividade econômica intensiva, mobilizando tecnologias e profissionais de diversas áreas para assegurar que o animal possa expressar todo seu potencial genético. Assim, as dietas são equilibradas e enriquecidas com minerais, vitaminas, aminoácidos etc.; a água é tratada e filtrada; os pintinhos são vacinados já no incubatório; as instalações permitem o controle da temperatura para o máximo conforto das aves. Técnicos de campo acompanham cada dia de criação para garantir o melhor ambiente aos animais. Galpões automatizados, com iluminação artificial, garantem às aves oportunidade de se alimentarem também durante o período noturno. Anualmente milhares de artigos técnicos são escritos por pesquisadores de todo o mundo que buscam melhorar cada vez mais a eficiência do setor, são raríssimos os artigos que tratam do uso de hormônios para frangos, e, assim mesmo, de caráter estritamente acadêmico.

E quanto à puberdade precoce de adolescentes? Bem, caso seja verdade que hoje em dia os adolescentes entram na puberdade mais cedo do que algumas décadas atrás (digo isto pois nunca de fato me interessei em procurar artigos que tratem deste assunto), arrisco-me a dizer que deveriam ser pesquisados como principais fatores a alimentação das crianças (mais adequada, com suplementação de vitaminas e minerais), a saúde (dispomos atualmente de vacinas e remédios mais eficientes, além de médicos cada vez mais especializados e com maior conhecimento) e a exposição precoce, pelos meios de comunicação, de meninos e meninas a conteúdos de natureza sexual.

Produção de frango com utilização de hormônio é um mito! Concito a todos os colegas que trabalham no setor a denunciarem aos nossos órgãos de representação as notícias veiculadas a respeito dessa invencionice. Apesar de todos os protestos, muitas notícias ainda circulam pela internet e certamente as encontraremos em meios impressos (jornais e revistas).

 


André Viana Coelho de Souza, DSc